“Uma vida bem vivida não é uma vida de uma autocriação fabulosa; é aceitar a tensão que constitui a nossa existência e viver tão plena e criativamente como podamos”, escreve Carlo Strenger, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Tel-Aviv (Israel), “a essência da visão existencialista da vida humana é a de que a tragédia é intrínseca à própria estrutura da individualidade.[1]”
Porém, uma parte considerável da cidadania não quer aceitar a realidade da vida, prefere deixar-se iludir pelo fastuoso glamour projectado em outros, aqueles que manipulam as bases da sociedade em proveito próprio. Preferem deixar adormecer a consciência com lixo sentimental, moral e intelectual.
Quando não enfrentamos perguntas temerárias sobre nós próprios olhamos para aqueles que são postos como exemplo, falseando a nossa perspectiva de vida, submissos a uma ilusão que nos intoxica e nos impossibilita a aceitação activa de nós mesmos.
Ser consciente das nossas forças e fraquezas e transformar a vida numa criação coerente, dar sentido ao nosso carácter, é o caminho que Friedrich Nietzsche sintetizou na Gaia Ciência. A liberdade humana, explica Karl Jaspers[2], consiste em aceitar as limitações com dignidade e não transformá-las em drama. Mas é precisamente isso que não convém aos poderes fácticos, pois a toma de consciência é geradora de força e resistência, elementos que é preciso serem reduzidos para que se sustente o glamour das forças dirigentes.
Por vezes é preciso chegar a situações limite para tomar a consciência humana da liberdade. Jaspers descreve como os seres humanos podem descobrir a sua liberdade neste encontro. Um encontro quando tem suficiente massa crítica social dão-se os grandes movimentos sociais que põem em perigo o 0,99% da classe social financeira.
Compensar a falta de dinheiro do cidadão com o snobismo cultural é uma das estratégias dos poderes na sombra. Criar a cultura de uma lista de coisas que o cidadão considere vulgar para assim se distinguir através de um projecto permanente e artificial, e falto de autenticidade humana, criando uma enorme fraude de si mesmos e escravizados a um modelo que redunde em beneficio económico para o sistema financeiro. Migalhas, milhões de migalhas, todas escoando num só sentido, do bolso do cidadão à fortuna de uns poucos para manter-se na moda
Não é um sistema justo, não é equitativo, não é ético. E é um sistema que de vez em quando gripa a causa de descomunais burlas. Alguns pensamos que os burlões devem estar na prisão. A classe política, em geral, acha que essas identidades privadas devem ser resgatados socializando a burla, isto é, responsabilizando o cidadão da dívida e dos erros de uns poucos particulares. A globalização, o neoliberalismo, é um eufemismo de um sistema antigo, quase um sistema feudal, de casta, em que o cidadão não tem escapatória, onde todo o sistema financeiro, político, social e cultural é desenhado para esse fim. O lixo televisivo que anula o pensamento crítico, induz a cidadania a um niilismo submisso, é desenhado com esmero. A cultura de massas tem entretido qualquer conterrâneo.
A única forma de travar esse sistema arcaico de extorsão é tomando consciência da situação real, ocupar a mente com realidades presentes e não com entretimentos glamourosos da cultura de massas, recuperar a racionalidade, tomar a consciência gregária como os gafanhotos. Os inofensivos gafanhotos que saltitam nos campos e nos jardins das casas mudam da cor verde para o preto e amarelo quando se juntam em sociedade. No espaço de duas horas transformam-se, de inofensivos bichinhos verdes em perigosos devoradores preto-amarelos, golpeando com uns esporões que têm nas patas traseiras. Depois espalham feromonas gregárias juntando-se numa praga de milhares de milhões de indivíduos, chegando a cobrir até mil e duzentos quilómetros quadrados. Quando se põem a caminho devoram tudo. Podem avançar até duzentos quilómetros diários e devorar cem mil toneladas de plantas por dia. O inofensivo gafanhoto quando gregário transforma-se numa força da natureza que nada consegue deter.
É motivo suficiente para o poder financeiro manter o cidadão amordaçado com eufemismos que apelem à sua vaidade snobe e ao egoísmo primitivo, deixando-o falto de vontade e afastado da racionalidade. “A maior parte dos cidadãos vulgares sentem que podem votar uma vez de vez em quando, mas, quanto ao resto, a sua influencia é negligenciável. Se não pretenderem envolver-se em partidos políticos, não terão impacto no funcionamento dos grupos. E, sobretudo, apenas os interesses poderosos dos grupos com um forte músculo financeiro irão verdadeiramente determinar a política, através dos lobbies e do incitamento.[3]”.
Aqui está a palavra chave, incitamento . O sistema incita ao consumismo compulsivo. O instrumento é o lixo televisivo, incita e letarga a sociedade. É um esquema muito bem armadilhado que captura a mente e a vida do cidadão. É o velho e brutal sistema feudal modernizado. Um novo discurso para velhas praticas. Há forma de estourar essa armadilha? A resposta curta é: há! Tomar consciência e recuperar a sua individualidade soberana, tornar-se dono de si mesmo. É um processo relativamente longo, pois é preciso romper velhos hábitos e requer o seu tempo. É preciso reaprender a viver em liberdade.
Claro que estamos só a considerar uma faceta do que é "uma vida bem vivida". Ao longo dos séculos este assunto ocupou o pensamento de filósofos e de religiosos. E de políticos. É necessário tocar outras facetas inerentes ao ser, mas este é um primeiro passo.
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