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A INTOLERÂNCIA COMO MODELO DE AFIRMAÇÃO NO MUNDO


A INTOLERÂNCIA COMO MODELO DE AFIRMAÇÃO NO MUNDO

sumário:
1. A INTOLERÂNCIA - uma introdução
2. SÍMBOLOS MEDIADORES
3. EMOÇÃO E RACIONALIDADE
4 . ÓDIO E CONTEXTO SOCIAL
5. TOLERÂNCIA
6. TOLERÂNCIA E INTOLERÂNCIA NO NOVO TESTAMENTO
7. DIREITOS HUMANOS
Bibliografia



1. A INTOLERÂNCIA - uma introdução

A intolerância é um anti-valor social. Não permite uma boa convivência social. É em si mesma um acto de violência emocional que recusa a liberdade de opinião. Promove a desigualdade, a discriminação, e pode até mesmo chegar à violência física. A xenofobia, a discriminação étnica e a discriminação religiosa são acções da intolerância.
Porquê essa incapacidade de suportar a opinião diferente dos outros? É importante identificar a origem dessa lacra. Quais são as causas da intolerância? É a primeira pergunta que devemos fazer.
A intolerância é basicamente uma afirmação do ego. O que é bom sou ‘eu’. O que não é bom é o ‘outro’. Aproxima-se muito da atitude de alguém que se sente inseguro. Ao estar inseguro anseia a necessidade de se afirmar com força, com teimosia, e até mesmo com violência para ter a sensação de segurança. Se autovalora desvalorizando o outro. É um mau caminho para valorizar-se como pessoa.
Desta forma vemos comportamentos singulares no intolerante. Se alguém opina diferente dele, ou dos que pensam como ele, não consegue ver nisso um diálogo mas vê no outro o inimigo que o pretende dominar, contrariar, vencer. É uma atitude muito primária, muito próxima à linha de sobrevivência primitiva, tribalista. É um resquício da evolução cultural de uma vida tribal a caminho de uma civilização.

2. SÍMBOLOS MEDIADORES

Para poder conviver uns com outros é necessário uma instância simbólica que seja mediadora nas relações humanas. Esse simbolismo mediador deve ser neutral. Há vários simbolismos. A justiça, os Direitos Humanos, a democracia. São exemplos de símbolos mediadores de convivência.
É verdade que os simbolismos mediadores são susceptíveis de adulteração nas suas funções. Podem ser manipulados para em vez de serem símbolos mediadores da convivência acabar sendo símbolos partidários. Deixam de ser mediadores e passam a ser meios interessados. Terminam por ser poderes de dominação. Como exemplo temos as ditaduras.
A idéia de Deus, é um símbolo mediador. Símbolo mediador universal por excelência. Adulterado tantas vezes por religiões fundamentalistas e por fanáticos passou à história como símbolo partidário interessado. As guerras de religião são uma afronta à idéia de Deus. Mas também no particular, a intolerância ao outro por opinar diferente da sua idéia de religião é uma agressão a essa idéia universal de Deus.

3. EMOÇÃO E RACIONALIDADE

Há um conteúdo emocional grande detrás da intolerância, mas também uma “cegueira da razão”. E a ignorância tem muito que ver nesse conteúdo. Voltaire afirma que a intolerância é consequência da irracionalidade dos sujeitos. Deixam que as emoções ceguem a percepção da realidade e da razão. A tolerância deve surgir da capacidade racional de refletir sobre o argumento do outro. Não pode haver convivência social sem essa capacidade racional de reflexão. Não foi por acaso que escreveu o “Tratado sobre a Tolerância” em 1763. Os conflitos entre católicos e protestantes em França estavam no ponto de intolerância para se cometerem actos de injustiça e inquietude social.
Os cristãos estão entre os mais intolerantes da história, em lugar de serem o exemplo do perdão e da tolerância. Não tem sido assim. Pela intolerância o mundo cristão foi desorganizado, fracturado na sua essência.
No percurso da história vemos tolerância religiosa nos grandes impérios. Tanto no ocidente como no oriente. Desde Síria até a Grécia e Roma. Da Índia à China. O Imperador Iungtching expulsou os jesuítas, não porque fosse intolerante mas porque os jesuítas o eram. Os próprios jesuítas relatam nas Cartas Curiosas os encontros com o Imperador. Este lhes diz: “Eu sei que a vossa religião é intolerante; sei o que fizesteis na Manila e no Japão.” Um tema suficiente amplo para ser tratado noutro artigo.
Só o “regime da razão” poderá reduzir o número de “maníacos” intolerantes que desorganizam a sociedade, diz Voltaire.

4 . ÓDIO E CONTEXTO SOCIAL

O mundo de quem odeia é um mundo radicalizado na intolerância, um mundo singular sem perspectiva. A intolerância, cega na sua medíocre auto suficiência, conduz à perda da empatia social. O intolerante tem uma empatia selectiva baseada na crença da verdade unilateral, a sua verdade, que é a verdade do seu grupo.
Não consegue assumir a responsabilidade dos seus actos porque já não pensa livremente. A acção é sempre destrutiva em vez de construtiva. Em artigo dedicado à destruição da civilização clássica pelo cristianismo e a chegada das trevas na idade média veremos com detalhe esta acção (&). A intolerância fermenta o espírito dogmático que assolou o mundo ocidental com uma virulência só inteiramente compreendida por quem dedica muitas horas de estudo. Não conhecer o passado é uma oportunidade de repetir os mesmos erros. “A fúria que inspiraram o espírito dogmático e o abuso da religião cristã mal compreendida já derramou sangue bastante.”- Voltaire, Tratado sobre a Tolerância, cap. IV.
Por isso a tolerância é uma necessidade social. É um valor e uma virtude do ser humano que deve ser construída diariamente.

5. TOLERÂNCIA

A tolerância só é praticável em sociedade. De outra maneira não teria sentido. A diversidade é o que conforma a sociedade. Sem a diversidade não existe sociedade. Isto é tão óbvio que não se necessitaria gastar mais tinta.
Mas o óbvio não o é tanto nos indivíduos cegados pela ideologia que pretende uma sociedade sem diversidade; "Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha."-Lucas, 11:23; Bíblia de Jerusalém. Esta frase é atribuída a Jesus durante a conformação do cânon do Novo Testamento, errônea e tardiamente, como trataremos em artigo correspondente (&).
O cegado pela ideologia demonstra uma ignorância tão lamentável que não vê que tal pretensão é anti-natura. Não vê que a intolerância destrói a convivência e a sociedade em vez de a construir.
No outro extremo, a tolerância arroja a ideia de que é possível viver em sociedade porque existe a diversidade. E isso é bom. Que o outro seja diferente, tenha outras ideias e outras perspectivas é enriquecedor. A tolerância proclama a diversidade como princípio. A intolerância o pensamento único. A tolerância gera livre-pensadores, pessoas que pensam por si mesmas e fazem as escolhas de vida por si mesmas. A intolerância anula o pensar próprio, outros pensam por ele e escolhem os seus hábitos de vida num molde ideológico. A tolerância permite que razão e emoção caminhem juntas. A intolerância anula a razão e enaltece a emoção enlata numa ideologia. A tolerância dá oportunidade à individualidade e ao colectivo. A intolerância produz o rebanho, e com frequência se transforma em manada furiosa. A tolerância permite o diálogo, o enriquecimento intelectual e de vida. A intolerância adjectiva, preconceitua, detém o fluxo racional, nega ao outro a capacidade de ser. A “capacidade de ser” é imprescindível para afirmar-se na vida. O intolerante adjectiva porque não tem capacidade de diálogo, não tem argumentos. Emprega a violência do adjectivo para anular ao próximo a capacidade de ser diferente; por exemplo, herege! Mas o herege não é mais que alguém que diverge de opinião.
A tolerância permite estar frente ao outro e reconhecer nele uma singularidade humana, divergente (como é próprio de qualquer sociedade), e ouvir o seu argumento sem apenas classificar. Devemos considerar que a opinião é como se fosse uma parte concreta do corpo de alguém, que você pode gostar ou não, mas que não o impede de partilharem juntos a sociedade. Se dois corpos completamente diferentes, duas pessoas, podem compartilhar o transporte público, o restaurante, o trabalho, o espaço público sem qualquer problema, também duas idéias diferentes de dois corpos diferentes podem compartilhar livremente a sociedade.
Tolerar significa estender ao outro os mesmos direitos que reivindicamos para nós mesmos; “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles.” - São Mateus, 7 - Bíblia de Jerusalém. Esta é a base da tolerância que Jesus promulgava.

6. TOLERÂNCIA E INTOLERÂNCIA NO NOVO TESTAMENTO

A esta altura já teremos dado conta de contradições nos relatos do Novo Testamento. Tais contradições colocam o livro, para melhor dizer, a coleção de cartas e livros, no lugar que lhe corresponde, que é o da cultura humana. Como produto cultural é natural que expresse as virtudes e as contradições humanas, a grandeza e a ignorância, a falibilidade e a arte da fabulação, a tolerância e a intolerância. Se a tudo isto, como diz o teólogo luterano Dieter Potzel, “se declara ‘palavra de Deus’, obtém-se uma imagem caótica e esquizofrénica de Deus”.
Mas aquele que está cegado pelo fanatismo religioso não vê que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo, e encontra explicações tiradas da cartola. Justifica o injustificável com argumentos retorcidos de uma mente intoxicada de ideologia contra-natura e anti-social. Consegue ver coerência naquilo que é caótico, ordem onde é casual e errático. Justifica qualquer coisa por mais vil, infame ou absurda agarrando-se à expressão: “Porquanto a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus. 1 Coríntios 3:19”. Considera o seu grupo como o único árbitro da vontade de Deus; uma idéia que a história demonstrou ser perigosa. Mas a capacidade de pensar criticamente é indispensável na vida cotidiana. A intolerância produz um deterioro do tecido social, produz uma deconstrução da educação e o desmoronamento da comunidade. Isso exactamente foi o que aconteceu quando o regime cristão da Igreja de Roma se tornou oficial numa época em que o império já agonizava. Essa agonia será decisiva para a Igreja Romana afirmar-se.
“Não há dúvida que todo o nosso conhecimento começa com a experiência”, afirma Kant na Crítica da Razão Pura. A experiência do século IV, onde se conforma o cânon atual, não é a experiência do século I. Nem  a experiência de Paulo é a experiência dos apóstolos. A sociedade e o cristianismo do século IV são muito diferentes do primeiro século. É natural que essas diferentes experiências gerassem diferentes idéias, conceitos e opiniões, e uma vez juntas num só livro tenham enormes possibilidades de se contradizer. E se contradizem.
O cânon do Novo Testamento é alinhavado no Concílio de Nicéia (385 d.C.) e efectivo no IIIº Concílio de Cartago (397). Mas é no Concílio de Trento (1545 - 1563) que se torna definitivo como cânone e dogma de fé. Declarados os textos da Vulgata ‘infalíveis’ pelo decreto De usu et editione sacrorum librorum tornaram-se eclesiásticamente vinculantes.
No processo de formação, que é um processo paulatino e longo, podemos distinguir claramente quatro etapas. Na primeira etapa, observamos a divulgação oral dos ensinos de Jesus pelas províncias do império romano, especialmente Grécia, Síria, Egipto e Roma.
Numa segunda etapa, a divulgação oral foi formando uma tradição onde se fabulam e acrescentam ditos e relatos sobre Jesus, assim como doutrinas divergentes de acordo ao entendimento de cada comunidade cristã. Formam-se diversos grupos que competem entre si.
Num terceiro período, já uma etapa tardia, essas tradições foram colocadas por escrito como uma narração biográfica de Jesus. Conta-se na altura 53 evangelhos circulando pelas diferentes comunidades cristãs do império, além de outros escritos: 23 livros de Actos, 11 epístolas, além das actualmente canónicas, 10 apocalipses e 13 livros doutrinais que não se classificam em nenhum dos grupos anteriores. É muita literatura e muita tradição, fruto da divergência, discrepâncias e contradições no primitivo mundo cristão. Por outro lado, as cópias que se fazem destes escritos e livros nem sempre correspondem com o original, nem entre elas.
Entrado o século IV, o bispo de Roma pretende tomar a dianteira e a proeminência sobre os demais bispos. Roma é a capital do império e por tanto o bispo de Roma, à semelhança do imperador, deve governar os demais bispos provinciais. Essa é a pretensão. E inicia manobras políticas nesse sentido.
No Concílio de Nicéia (385 d.C.) trata de alinhavar a política e a doutrina de acordo aos interesses particulares da Igreja de Roma dentre o maremagnum de doutrinas em que se encontra o cristianismo. As determinações do Concílio ficam orientadas conforme os interesses do bispo de Roma. Este Concílio dá início à conformação do futuro catolicismo romano em detrimento de outras comunidades cristãs, com idéias, doutrinas e interesses diferentes dos da igreja de Roma. E surgem conflitos mais ou menos graves no seio do cristianismo.
Numa quarta etapa, o Papa Dámaso I (305 - 384, papa desde 366) encarga a Jerónimo (São Jerónimo) a tradução para o latim tanto das Escrituras Hebraicas (Antigo Testamento) como um Novo Testamento para ser lido como regra em todas a igrejas. Seria a futura Vulgata Latina. Até então não existe nenhum Novo Testamento, nenhum cânon cristão à semelhança do cânon hebraico.
A Vulgata foi o ponto de partida para o que veio a ser conhecido como Novo Testamento. Sentou a base do que seria a Bíblia (Antigo e Novo Testamento). Este tema está desenvolvido em artigo correspondente (&), mas faremos aqui um breve resumo para percebermos realmente como se encontrava a situação nessa altura.
Circulavam muitos textos em uso nas igrejas, dos quais todos se diferenciavam em maior ou menor grau. Por isso, Jerónimo explicou ao Papa Dámaso I a situação insatisfatória para fazer uma recopilação dos textos que se deveriam considerar apropriados para um Novo Testamento. Diz, “Tu me obrigas a criar uma obra nova partindo de uma antiga, e ao mesmo tempo actuar como árbitro sobre exemplares da Bíblia, depois de terem sido difundidos há muito tempo por todo o mundo e donde diferem entre sié difícil encontrar a verdade em formas diferentes de leitura… há quase tantas formas de texto como cópias. Expôs ao Papa os problemas praticamente sem solução para elaborar um Novo Testamento.
A carta ao Papa é extensa mas trataremos de resumir para dar uma ideia daquilo que temos de lidar. Jerónimo reconhece “erros, textos incompetentes, partes acrescentadas e mudanças nas cópias por interpretação”. É reconhecido como um homem ponderado, não é fanático, mas ao final claudica e elabora uma obra onde “considerou todos os interesses predominantes, isto é, aquelas partes que interessavam doutrinariamente ao Bispo de Roma (Papa Dámaso I).
Porquê um homem ponderado, e que não é fanático, cede ao encargo do Papa? Talvez possamos compreender e desculpar a Jerónimo se conhecermos um pouco Dámaso I. O fulano, Dámaso, conquistou o trono de Papa depois de guerras sangrentas com mercenários contratados contra o seu rival Ursino. É um mau precedente para pretender ser um seguidor de Jesus. Um dos seus episódios foi o assalto a 26 de Outubro de 366 à igreja de Santa Maria Maggiores matando a 137 partidários de Ursino. Por fim a vitória foi conseguida através da aliança com o Perfeito  pagão Vettius Agorius. Esta união de forças decidiu o final da guerra interna cristã.
Mas os actos truculentos de Dámaso não terminam aqui. Continuaram ao longo do seu mandado de Papa. Impôs-se à restante cristandade por influências de amigos ricos junto dos imperadores Valentiniano I e Graciano. Estes imperadores acabaram por reconhecer ao Papa e à Igreja Romana o poder disciplinário e pondo à sua disposição as autoridades do Estado para levar a cabo acções seculares. Este foi o ponto de inflexão para uma férrea ditadura eclesiástica que viria.
O encargo para a elaboração da Vulgata Latina foi um elemento mais nesse sentido, conseguir a hegemonia da Igreja Romana, os seus pareceres particulares e doutrinários sobre toda a cristandade. Por então já o cristianismo se encontrava  adulterado com elementos osíricos e mitraicos, assim como conceitos das filosofias epicureas e platónicas. Mais tarde outros elementos pagãos se lhe iriam incorporar com total descaro.
As vozes discordantes de outras igrejas seriam sufocadas numa repressão brutal. Todo o bestiário humano conhecido da Idade Média foi fraguado nesta altura. Os escritos e evangelhos antigos que as igrejas tinham foram simplesmente destruídos, confiscados e queimados em fogueiras públicas. Eram cópias discordantes dos interesses da Igreja Romana e da sua Vulgata.
O próprio Jerónimo transmite ao Papa a sua preocupação pelo tipo de encargo que lhe faz, que outros lhe chamem de “falsificador e sacrílego porque tive a ousadia de acrescentar, mudar ou corrigir nos antigos livros… Há duas reflexões que me consolam e me permitem aceitar sobre mim esta lacra: que por um lado que tu, o bispo de maior hierarquia, me ordenas fazê-lo; por outro, que é difícil encontrar a verdade em formas diferenciadas de leitura, como confirmariam os meus difamadores… há quase tantas formas de texto como cópias…. Mateus, Marcos, Lucas e João, se os comparo com os manuscritos gregos, claro que são antigos! foram reelaborados por nós. Ainda assim, Jeronimo faz referência a manuscritos mais antigos que discordam dos evangelhos reelaborados, como o evangelho de Mateus, que é conservado pelos cristãos nazarenos e pelos cristãos ebionitas. É mais curto que o evangelho de Mateus reelaborado que se conhece actualmente. Por exemplo, o nascimento e a infância de Jesus no evangelho de Mateus não existia. Foi um acréscimo ao evangelho original, assim como também a parte final outro acréscimo. Contém elementos mitraicos que adulteram o contexto judaico. A narrativa desses trechos são flagrantes falsificações.
O texto da Bíblia mais antigo existente na actualidade é um fragmento com umas poucas frases procedente do ano 250, mas tanto Jerónimo como outros padres da Igreja fazem referência a esta situação de acréscimos e falsificações dos textos mais antigos do seu tempo.
Esta é uma questão fundamental. Então não é de estranhar as contradições que encontramos nos evangelhos actuais. Por exemplo, quando Jesus afirma: "Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha."-Lucas 11:23, é uma frase de profundo sentido intolerante, atribuída a Jesus de maneira muito conveniente no contexto do século IV, na pretensão hegemônica da Igreja Romana sobre as demais igrejas do império. Uma época sangrenta em que cristãos perseguiam cristãos, em que cristãos espancavam, encarceravam e assassinavam os que não o eram.
Porém contradiz o perfil e o percurso de Jesus. A vida prática e a mensagem de Jesus é de uma tolerância abrangente, e mesmo alarmante para o poder eclesiástico na altura. “Vós julgais segundo a carne, eu a ninguém julgo.” - João 8:15. Tal declaração é revolucionária no seio de uma cultura perigosamente intolerante como a judaica.
O povo hebreu desde os alvores da sua história é um povo esquizofrenicamente xenófobo. Diante, a imagem de um Deus ciumento que não tolerava a presença de estrangeiros na terra que tinha escolhido. Quando chegaram àquela terra, que não era a deles, mais de mil anos antes, segundo os próprios o seu Deus decretou que assassinassem todos os homens, mulheres e crianças que encontrassem, assim como matassem todos os animais, queimassem todas os campos, colheitas e quintas, destruíssem todas as coisas vivas que encontrassem sem exceção, de maneira que não ficasse rastro algum do povo que ali habitava, para que o seu Deus fosse Deus único e mais nenhum (Deuteronómio 20). Hoje o tal Deus seria levado ao tribunal internacional para ser julgado por crimes contra a humanidade, não é verdade? Com este modelo se manteve a história na Palestina até ao tempo de Jesus.
Os samaritanos eram o povo que habitava a região de Samaria ao norte de Judá. Por antigos ódios que provinham de quando o reino se dividiu, ao norte Israel e ao sul Judá, os judeus consideravam os samaritanos uma raça maldita. Não se tratavam nem se falavam. Nenhum judeu ‘piedoso’ da sua religião, nenhum judeu decente tinha qualquer relacionamento com um samaritano.
Assim estavam as coisas quando alguém, um doutor da lei judaica, lhe pergunta a Jesus quem é o seu próximo. “E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. - Lucas 10:30-37”.
Não é necessária mais inteligência da normal para compreender o abismo entre este percurso de vida de Jesus e a atribuída frase "Quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha."-Lucas 11:23. Só aos olhos do fanatismo, cegados por uma qualquer ideologia, consegue não ver o óbvio. Lucas 11:23 é incompatível com o pensamento e a vida de Jesus: “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós - Mateus 7:12”.
A atribuída frase de Jesus "quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha."-Lucas 11:23 causou mais intolerância, mais assassinatos e mais guerras que nenhuma outra na enlouquecida história do cristianismo. “Cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo.” - Russel, Bertrand; Porque não sou cristão, p. 18.

7. DIREITOS HUMANOS

Essencialmente os Direitos Humanos estão baseados na tolerância. São direitos que se tem simplesmente por se ser humano. É o que instintivamente se espera e merece ser tratado como pessoa. Todos têm exactamente os mesmos direitos. São universais. O primeiro documento sobre direitos humanos está escrito em língua acádia num cilindro de barro em letra cuneiforme, o Cilindro de Ciro. Está traduzido nas seis línguas oficiais das Nações Unidas e as suas estipulações são similares aos primeiros quatro artigos da Declaração Universal dos Direitos do Humanos;
“Declaração Universal dos Direitos Humanos:
Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2°
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autônomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3°
Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4°
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.”
No princípio, na história, não havia direitos humanos. Decorria a lei do mais forte. A virtude era o poder, o domínio. Até que um homem decidiu mudar as coisas. Ciro II o Grande, rei da Pérsia entre 559 e 530 a.C. foi um rei com uma sensibilidade humanista. Estabeleceu a igualdade racial, libertou os escravos e declarou que todas as pessoas tinham o direito de escolher livremente a sua própria religião. Quando em 539 a.C. conquista Babilónia liberta o povo judeu cativo por Nabucodonosor II. Em 536 a.C. ajuda o povo judeu na reconstrução de Jerusalém.
A idéia dos direitos humanos foi revolucionária. Espalhou-se rapidamente à Grécia, Índia e finalmente a Roma. É aqui, em Roma (a Roma antiga), que surge o conceito de “lei natural”, a tendência de as pessoas seguirem certas leis não escritas no curso da sua vida. O “direito romano” vai surgir precisamente da observação racional da natureza das coisas. Mas depois de Ciro II os que detinham o poder continuaram a ignorar os direitos naturais. Não é até 1215, em Inglaterra, que surge o segundo documento sobre os direitos das pessoas, a “Carta Magna”. Outros documentos contribuíram para a construção dos direitos humanos, como a “Petição de Direito” em 1688, a “Constituição dos Estados Unidos” em 1787, a “Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão” em 1789 e por fim a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” das Nações Unidas em 1948. São considerados direitos mínimos indispensáveis e essenciais para a vida humana.
Esses direitos precisam viver em cada coração humano, serem reivindicados quando não respeitados, senão seriam letra morta num papel. Quando Martin Luther King marchou a reivindicar a igualdade racial esse direito estava garantido há quase duas décadas pelas Nações Unidas. Ainda assim houve necessidade de reivindicar. Os direitos humanos são as escolhas que fazemos diariamente como seres humanos . E são as escolhas entre "quem não está comigo, está contra mim; quem não recolhe comigo, espalha."-Lucas 11:23 e “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós - Mateus 7:12”. São as escolhas entre intolerância e tolerância.




Bibliografia

Voltaire; Tratado sobre a Tolerância
Kant; Crítica da Razão Pura
Bíblia de Jerusalém
Universidade de Genéve; Curso de Direitos Humanos
Pedro de Santi; Raízes da Intolerância
Dieter Potzel; El Teólogo nº 14
Lou Marinoff, Daisaku Ikeda; El Filósofo Interior
Reza Aslan; O Zelota - a vida e o tempo de Jesus de Nazaré
Bertrand Russel; Porque não sou cristão

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