A religião é um produto cultural. Não poderia ser de outra maneira. Muitas vezes é uma imposição que tem sido inimiga da ciência e da investigação, cúmplice da ignorância, da imoralidade, da escravatura, do genocídio, do racismo e da tirania. Como exemplos, o Antigo Testamento é uma história dos horrores da humanidade. E e o Novo Testamento, especialmente o “evangelho de Paulo”, provocou a decadência da civilização até um ponto nunca antes conhecido. A Idade Média foi o momento álgido do disparate religioso forjado nos séculos IV e V. E os crentes, especialmente os mais fundamentalistas, querem ver a religião não como um produto cultural mas como uma revelação, confundindo religião com espiritualidade.
No mundo antigo, à época do Império Romano, o conhecimento do mundo e dos seus fenómenos avançava pela mão da filosofia. A matemática, a geometria, a astronomia, a medicina, a arquitectura já estavam desenvolvidas. O conhecimento do mundo e dos seus fenómenos era uma preocupação que culminava na criação de bibliotecas. A de Alexandria foi a mais famosa.
O sentido de higiene e o cuidado do corpo era um assunto relevante ao ponto de as cidades terem os seus próprios balneários públicos. Conheciam a canalização de água, não só pública mas também nas casas mais abastadas. A construção de aquedutos, pontes e uma rede de estradas foram prioritárias na civilização romana. As redes de esgotos eram uma infraestrutura que revelava um conhecimento avançado de saúde comunitária, assim como a drenagem de pântanos. O sentido de higiene estava no caminho correto. Organizaram os meios de transportes. Em toda a Itália, a Gália e África a rede de estradas era excelente.
No campo social o sentido de justiça do direito romano foi o suficientemente bom que acabou por ser o fundamento do direito no mundo ocidental, talvez devido ao endémico conflito provocado pela desigualdade social que transcorreu ao longo da história de Roma. Durante a época Antonina (96 a 192 d.C. - século II) o Estado romano fez regulamentos para fomentar a agricultura, ajudando os pequenos proprietários campesinos com a organização de créditos rurais. Os juros eram destinados às crianças que se encontravam desamparadas.
As religiões têm como base factores psicológicos independentes do fundamento racional. Surgem não só de uma tentativa de entendimento racional do universo, mas sobretudo de emoções humanas mais primitivas e básicas, dos instintos naturais do medo e da esperança; do medo de influências desconhecidas. Prosperam mais em situações de insegurança, de ignorância e de medo ao futuro. As catástrofes e os fenómenos da natureza, assim como as convulsões sociais, imprimem fortes sentimentos religiosos quando as causas dos acontecimentos estão longe da compreensão do indivíduo. Como também as crises pessoais. No passado os fenómenos naturais, assim como as doenças, eram atribuídos ao sobrenatural. As religiões procuravam dar uma resposta convincente. Ao surgir a ciência, e à medida que vai evoluindo o conhecimento científico desses fenómenos, a religião vem perdendo o seu campo de influência. Nem as tempestades eram provocadas por Neptuno nem as colheitas estavam influenciadas pela deusa Ceres, por exemplo. Na actualidade observa-se um fenómeno social crescente, a religião nos países mais industrializados perde importância a favor da espiritualidade. Não assim nos países menos desenvolvidos.
A espiritualidade constitui um fenómeno universal transcendendo épocas e culturas. É parte da dimensão humana. É fundamento da religião mas não estritamente identificado com esta. A dimensão espiritual possui variadas expressões, sendo a religião a mais destacada. A espiritualidade trata de uma relação multifacetada com o transcendente através de vivências relacionadas com a arte, a filosofia, a natureza, etc. A religiosidade é uma expressão mais da espiritualidade, que se expressa doutrinariamente com um conteúdo moral e comportamental próprio, mas não exclusivo, pois a moral e o comportamento social também se expressam sem uma religiosidade concreta. Ainda a espiritualidade pode conduzir a intensas vivências subjectivas que o indivíduo vai interpretar de acordo ao seu contexto cultural de crenças e ideologias.
O leitor desavisado pode confundir facilmente que espiritualidade e religiosidade são termos sinónimos, mas na verdade não são rigorosamente intercambiáveis. A espiritualidade é como se fosse o corpo e a religiosidade a roupa, o fato.
A espiritualidade possui habilidades próprias que se podem associar a uma inteligência espiritual, como “a capacidade de transcendência, capacidade para dar significado a acontecimentos e actividades com um sentido de sagrado, capacidade para comportar-se de uma maneira virtuosa, capacidade para reutilizar recursos espirituais para solucionar problemas da vida, capacidade para entrar em estados de consciência alterada (com ou sem experiência mística sobre o sagrado)” - prof. Robert A. Emmons, University of California Davis: Assessing spirituality through personal goals: implications for research in religion and subjective well-being. Social Indicators Research 1998.
Este último, ‘estados alterados da consciência’, oferece vários fenómenos como: as experiências místicas, as experiências extra-corporais, as experiências próximas à morte, as alucinações aludidas a um significado espiritual provocadas pelo uso de plantas psicoativas ou pelo jejum prolongado. A investigação classifica estes estados como ‘estados excepcionais de consciência’ por ressaltar emoções positivas e aliciantes - [Prof. Antti Revonsuo, University of Turku, Finland, University of Skövde, Suécia: Encyclopedia of Consciousness, Academic Press is an imprint of Elsevier, San Diego, California, 1º Edi 2009].
As religiões são um produto cultural evoluindo num contexto histórico. As nossas escolhas estão condicionadas em torno de uma gama de experiências ao longo da vida relacionadas com a família, a nossa formação cultural, crenças e valores; elementos estes que influenciam e condicionam intimamente as nossas acções. Já David Hume, filósofo escocês do séc XVIII, se questionava quais são os princípios que engendram uma crença básica e quais os acidentes ou fenómenos causantes de uma evolução díspar nessa crença original. "A tendência de tecer histórias onde faltam provas é a característica de sustentação do cérebro humano, precipitando acções heróicas, amor insensato e ódio irracional." - [Nathan Heller, O que os e-mails da Enron dizem sobre nós, New Yorker, Ago 2017]. Portanto, não podemos compreender uma religião sem o seu contexto histórico, cultural, social, político e antropológico.
Ainda a ciência tem uma palavra a dizer sobre o próprio fenómeno da espiritualidade e a religiosidade. Há numerosas investigações científicas que consideram o valor da espiritualidade e da religiosidade como factores promotores e restauradores da saúde [Religião , espiritualidade e câncer : situação actual e desafios metodológicos. Stefanek M, [McDonald PG], [Hess SA] - Programa de Pesquisa Comportamental, Divisão de Controle do Câncer e Ciências da População, Instituto Nacional do Câncer , Institutos Nacionais de Saúde, Departamento de Saúde e Serviços Humanos, Bethesda, MD 20852, EUA].
Todos estes conceitos devem estar definidos e perfeitamente enquadrados na dimensão humana tal como explica o Prof. Wilson: “Nós seres humanos somos animais, governados pelas leis da biologia. Nossa vida e nossa morte são processos biológicos, de um tipo que também testemunhamos em outros animais. Nós temos necessidades biológicas e somos influenciados e constrangidos por genes com seu próprio imperativo reprodutivo. E esse imperativo genético se manifesta em nossa vida emocional, de maneiras que nos lembram o corpo e seu poder sobre nós“ [Edward O. Wilson, On Human Nature, Princeton University Press]. Quando uma ideologia religiosa qualquer inventa normas, leis, estatutos opostos às leis biológicas, à genética, à natureza, surge o conflito emocional entre a biologia e a crença, entre a ideologia e a imperiosa necessidade natural. Temos o exemplo de São Paulo com relação à lei judaica: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido sob o pecado. Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. E, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo. Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:14-24]. Pedro (São Pedro) explica como a mensagem de Jesus é uma saída da religiosidade para a espiritualidade, uma libertação da lei religiosa judaica para uma experiência espiritual mais satisfatória, “Agora, pois, por que quereis tentar a Deus, colocando sobre as costas dos discípulos uma carga que nem nossos antepassados nem nós mesmos conseguimos suportar?” [Actos 15:10].
Isto nos leva à questão entre “cuidar de si mesmo” ou levar uma “existência aparente” numa ideologia. Para Platão a realidade está no "mundo das Ideias", e esta existência terrena é só uma sombra do mundo das Ideias; esta vida terrena é de segunda categoria, sendo o mundo das Ideias (o mundo sobrenatural) o mundo verdadeiro. O cristianismo de Paulo, que é o cristianismo que sobreviveu, vai adoptar e integrar esta filosofia platónica no cristianismo com consequências desastrosas na civilização ocidental. Mas este conceito já tinha sido introduzido pela helenização da Palestina quando do domínio grego, especialmente assimilado pela seita judaica dos fariseus. E Paulo é um fariseu.
O “cuidar de si mesmo” conduz a um determinado estilo de vida que Foucault chamou de estética da existência. O estilo de vida que a existência aparente propõe é uma negação à vida, é uma renúncia de si mesmo a favor de uma entrega a supostos valores superiores que negam a vida. Nietzsche denunciou o cristianismo com uma feroz negação à vida, como uma instituição que enfermou a raça e a civilização. Em contrapartida Jesus faz uma afirmação à vida, a sua mensagem é um cuidar de si mesmo. Na realidade a mensagem central de Jesus é elevar a vida ao mais alto nível. Não mais o homem a servir a lei (judaica) mas a lei a servir o homem, não mais o homem servir a instituição mas a instituição a servir o homem. Eleva a mulher e a criança de meras possessões do homem a seres humanos de pleno direito. A sua mensagem libera da religiosidade institucional, anquilosada e opressiva, a favor de uma espiritualidade libertária. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” [Gálatas 5:1] escreve Paulo com relação à lei religiosa judaica que alguns cristãos fariseus queriam impôr aos conversos.
Pode-se confundir este cuidar de si mesmo como uma atitude egoísta, sem importar os outros e a humanidade. Nada mais longe da realidade. Este cuidar de si mesmo trata da integralidade do ser em toda a dimensão humana, incluída a espiritualidade. Passamos de uma visão de existência aparente para uma mais realista, antropológica, materialista e espiritual. A religião, que não é mais que uma instituição, está fora dessa integralidade do ser, é um produto cultural evolutivo. Se o indivíduo não possui este cuidar de si mesmo como pode pretender cuidar dos outros. Só um cuidar de si mesmo forte é capaz de dar-se a si mesmo, de sacrificar-se pelos outros.
Arrancar uma qualquer religião do seu contexto histórico-cultural a que pertence conduz ao fracasso absoluto da sua compreensão. Temos o exemplo do cristianismo com as suas múltiplas e labirínticas ideologias competindo entre elas por um lugar preponderante na sociedade. Ao princípio do século XX eram à volta de 1.900 denominações religiosas cristãs. Segundo a Annual Statistical Table on Global Mission: 2004 ( a última à data actual de 2018) do professor David Barret e Todd Johnson da Regent University, Virginia, EEUU, eram 18.600 denominações religiosas cristãs em 1970 e 37.000 em 2004.
Cabe perguntar o porquê de tão disparatado fenómeno, de tantas denominações cristãs com ideologias tão díspares bebendo da mesma fonte, a Bíblia, e todas outorgar-se a ‘verdade autêntica e absoluta’? Nietzsche pôs o dedo na ferida: “quando a mentira se apropria... da palavra ‘verdade’ para a sua própria óptica, aquilo que é realmente verdadeiro tem de ser descoberto sob as piores nomenclaturas” [Nietzsche, O Erro da Humanidade, p.81, Coisas de Ler Edições Lda, Lisboa, 2005].
O conceito de ‘verdade’ facilmente costuma ser confundido, ou mesmo intercambiável, entre a ‘verdade’ da proposição científica e a ‘verdade’ da proposição nas humanidades. A proposição científica pede a ‘verdade’. A proposição nas humanidades pede ‘a verdade para mim’. Ora, a religião nunca foi uma proposição científica. De aí o vário-pinto descontrolado das ideologias religiosas.
Há alguma forma de contingência, de pôr um pouco de ordem e entendimento no pupurri religioso? A filosofia é uma ferramenta de trabalho que vai ajudar a classificar e ordenar, a ressaltar erros básicos do pensamento, a levar-nos a uma melhor compreensão. O estudo da filosofia é uma educação que enriquece e capacita as pessoas para uma análise rigorosa das formas de pensar e de agir. A filosofia é o processo de investigar e de questionar o lugar dos seres humanos na natureza e na história, assim como as suas responsabilidades para com os outros e para consigo mesmo, baseado na compreensão o mais completa e disponível da ciência, da cultura, da arte e da religião. Pondera a coerência e a integralidade de várias crenças, argumentos e teorias dentro do contexto histórico. Bill Miller, doutor em filosofia pela John Hopkins University descreve: "A filosofia envolve pensamento crítico e raciocínio sobre questões altamente complexas. Na melhor das hipóteses, é rigorosa e analítica. Essas habilidades são exactamente o que é necessário para pensar e entender correctamente. Por bom que se seja (na sua área de conhecimento), o treinamento filosófico irá torná-lo melhor". Estes são os hábitos básicos requeridos ao filósofo para compreender a dimensão humana, a espiritualidade e a religiosidade.
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